UM SONHO CHAMADO McKINLEY

Tudo na vida começa com o sonho e a vontade, o lado emocional. Depois vem a fase de projeto e planejamento, o lado racional. Desde a infância as montanhas exerciam um verdadeiro fascínio sobre mim. Sempre gostei de desbravar lugares altos que ofereciam belas paisagens. Na infância e adolescência, eu tinha dois sonhos: o primeiro era voar e o segundo era conhecer e conversar com uma pessoa que tivesse escalado uma montanha gelada, queria ao menos apertar na mão de um “felizardo” escalador.
Confira as imagens da Expedição !!!
Influenciado pela minha origem pobre, até então, jamais me havia passado pela cabeça que eu mesmo pudesse escalar a tal montanha. Neste tempo eu era vítima da desgraça humana que é a transferência de responsabilidades, achava que grandes realizações era coisa para outros, pensava que eu jamais poderia fazer isso.
O tempo foi passando e eu entendi que devia sonhar e mais que isso, estudar um meio de realizar meus sonhos. Criar um plano estruturado, inteligente e digno de realização para que os sonhos fizessem sentido e se tornassem realidade. Sonhar e acreditar nos sonhos é vital, a fé move montanhas e também move o montanhista, desde que ele não se escore na fé, mas a use como ferramenta de motivação para um trabalho organizado e bem estruturado.
No dia 29 de maio de 2010 eu parti do Ceará para a minha maior expedição, vale lembrar que antes desta partida eu já havia escalado 4 montanhas acima de 5.500 metros: Cerro Vallecitos (5.500m), Huayna Potosi (6.088m), Ojos del Salado (6.893m) e o Aconcágua (6.962m), as duas últimas são respectivamente, o maior vulcão da Terra e a maior montanha da Terra, fora da Ásia. Estas duas últimas, escalei duas vezes cada uma, na primeira tentativa no Aconcágua, em janeiro de 2005 cheguei a 6.700m e retornei quando estava a 262m do cume, na segunda tentativa, em janeiro de 2006 fiz cume. No Ojos del Salado, em fevereiro de 2008, também retornei de 6.700m quando estava a 193m do cume, na segunda tentativa em janeiro de 2009, fiz cume.
Depois do Aconcágua fui cada vez mais tomando gosto por altas montanhas e não parei mais e estabeleci como meta escalar a maior montanha de cada continente. Sempre soube que era um desafio imenso, especialmente para quem não nasceu em berço de ouro, mas eu gosto de desafios e cada dia tenho abraçado um maior que o outro.
Nesta última empreitada, atravessei metade da Terra e fui parar no Alasca com o objetivo de escalar a maior montanha da América do Norte, o McKinley (6.194m). Pela altitude, por estar abaixo do Aconcágua, pode parecer fácil, porém o McKinley está muito próximo do Pólo Norte, um dos lugares de clima mais instável na terra e para dar um sabor especial a aventura, é uma montanha que exige técnica.
A aproximação da montanha é feita em 45 minutos de vôo entre montanhas, num monomotor que passa raspando vários cumes e desviando de outros e finalmente pousa num glaciar a 2.180m de altitude. A partir do glaciar são mais
A partir do Medical Camp (4.330m) começa a escalada técnica. Até 4.700 é uma parede muito íngreme que é feita com crampons e bastões. Acima disso até 4.900m tem cordas fixas para segurança. De 4.900m a 5.200m é o trecho mais técnico, é uma longa aresta com algumas subidas em cordas fixas e a maior parte do trecho totalmente exposto, precisamos colocar estacas de gelo para nossa segurança, para que possamos progredir na aresta que oferece queda livre dos dois lados, de um lado uns 500m e do outro uns 800m. Todo este trecho é feito na quina da aresta, hora pisamos de um lado, hora do outro e alguns trechos subimos com uma perna de cada lado. São duas horas e 30 minutos de pura adrenalina, é um trecho arrepiante, este é o crux da via. É o lugar mais bonito da montanha, mas ninguém consegue fazer mais que duas ou 3 fotos e ainda nos lugares um pouco mais tranqüilos.
Após a chegada ao High Camp (5.300), temos uma longa travessia por uma parede muito exposta, neste trecho tem algumas estacas de gelo para proteção nos lugares mais perigosos, nos demais, temos que garantir a segurança com crampons e piqueta.
Desde a descida do avião até o retorno, o grupo tem que se manter encordado, a única exceção é nos acampamentos e ainda precisamos respeitar a área demarcada, pois existem gretas por todos os lados.
Este ano, peguei um clima pior que o esperado. Passei 11 dias preso no Medical Camp (4.330m). As nevascas e as tormentas não me permitiam subir. Quando o tempo permitiu, subi para 4.900m e depois de dois dias abriu uma janela de tempo e fiz ataque ao cume, um dia maravilhoso, sem nuvens e sem vento. Tudo parecia perfeito até eu chegar a 100m de desnível para o cume. Já não havia nenhum detalhe técnico a ser superado, era apenas uma caminhada numa aresta relativamente tranqüila, quando de repente, começa a entrar rajadas de ventos e em poucos minutos a ventania tomou conta de tudo, tirando a visibilidade e a segurança. Existia previsão de tormentas para o dia seguinte, porém ela chegou antes e me pegou a 63m do cume, eu estava numa equipe com mais 3 brasileiros, na esperança que a tempestade passasse, nos abrigamos por trás da aresta final, ficamos uns 45 minutos abraçados, tentando nos aquecer e o vento só aumentava. Quando olhávamos para a aresta, a neve subia como se fosse arremessada por motores potentes. Avaliamos a situação e vimos que estávamos perdendo calor rapidamente e já tinha alguém que não sentia as pernas, outro não sentia as mãos, nesta hora tomamos a difícil e acertada decisão de descer.
Apesar de todo um planejamento bem feito, um bom condicionamento físico e bons equipamentos, mas as altas montanhas sempre terão o fator climático que pode surpreeender. Nesta hora precisamos conhecer bem nosso organismo e ficar antenado com o movimento de cada nuvem.
A chegada ao cume é o momento de maior risco, estamos o mais distante possível do acampamento e expostos a mudanças climáticas bruscas e ainda podemos ser coagidos pela emoção. Agir pela emoção pode significar tragédias como aconteceu no Everest em maio de 1996 quando 13 pessoas perderam a vida. Tivemos também uma temporada trágica em 2009 no Aconcágua quando morreram 6 pessoas (incluindo um guia), superando outra temporada, também trágica que foi a de 2005, quando eu estive no Aconcágua pela primeira vez e acompanhei de perto 4 mortes (incluindo um brasileiro).
Quando vemos a literatura de montanhas, na grande maioria das situações trágicas temos mudanças bruscas de clima e falta de atenção dos escaladores.
Este ano, dei meia volta quando estava a míseros
Precisamos ter a medida certa de ousadia, mas não podemos abusar da sorte. Na vida temos que aprender a curtir caminhos e não ficar apenas mirando o destino. Há tempo de plantar e de colher, tempo de seguir e de recuar. Muitas vezes recuar estrategicamente é a melhor alternativa e a mais sábia.
Escalar montanhas é muito mais que ganhar alturas fazendo algum esforço físico, é um exercício de planejamento seguido de ações estratégicas que visam otimizar os recursos e esforços e progredir com segurança. Neste exercício, muitas vezes precisamos recuar para melhor planejar nossas ações e seguir em frente quando estamos seguros dos resultados ou no mínimo plenamente consciente dos riscos que estamos assumindo.
Esta foi de longe a mais difícil expedição que já fiz. O McKinley é um grande ícone e orgulho da nação americana e eles protegem a montanha contra a banalização de todas as formas. São intransigentes com os aspectos de segurança e limpeza, fazem uma seleção criteriosa antes de permitir a entrada de montanhistas e não permitem de forma alguma qualquer serviço dentro do parque. Não há barracas que vendam alimentação e nem serviços de porteio de equipamentos e/ou comidas. Cada montanhista deve ser totalmente autônomo, cuidar da sua segurança e do transporte de seus equipamentos, isso a torna infinitamente mais difícil que outras montanhas tecnicamente equivalentes. Contando ainda com uma diferença de 6 horas de fuso horário (5 horas com o horário de verão no Alasca) o que dificulta a aclimatação. Ainda temos o fato da localização geográfica, o McKinley está bem próximo do Pólo Norte, lugar de clima muito instável e neste período do ano tem luz solar nas 24 horas do dia dificultando ainda mais o trabalho de aclimatação orgânica, afinal nosso corpo foi criado para trabalhar sob a luz do sol e descansar com o escuro da noite.
Hoje é 7 de julho, estive no ponto culminante (6.131m) no domingo dia 20 de junho, há exatos 17 dias e até hoje não consegui me recuperar 100%, principalmente o sono e horário de dormir. Os 22 dias de escalada me fizeram perder
Quando mostrei as fotos de onde estive aos guarda parques, eles me parabenizaram pelo cume, eles consideram o local onde fui como cume. Foi uma experiência única em uma montanha de nível técnico muito alto. O McKinley é uma montanha para gente grande, é bem mais difícil do que eu imaginava, porém eu estava bem condicionado e suportei bem os desafios.
Depois de 30 dias longe de casa e do escritório, ainda não tive tempo de responder aos inúmeros e-mails que recebi, aproveito aqui para agradecer a todas as muitas e muitas mensagens de boa sorte e as felicitações recebidas, obrigado pelo carinho e boas energias enviadas. Cada mensagem recebida me impulsionou a ir mais
A mensagem que deixo para todos é que não percam tempo, acreditem com fé nos seus sonhos e invistam nos seus sonhos todas as suas energias com força e determinação e confiem nos frutos que eles viram. Ninguém nasce empresário, advogado, médico ou montanhista, se torna ou não, de acordo com nossas atitudes diante da vida.
O que somos hoje é fruto do que plantamos algum dia ou que esquecemos de plantar. O poeta tem razão “Cada um de nós compõe a sua história, cada ser em si carrega o dom de ser capaz, de ser feliz”
Aguardem que brevemente estarei fazendo uma apresentação pública com fotos e vídeos da expedição, incluindo exposição de todos os equipamentos usados na expedição.
A todos um caloroso abraço do tamanho do McKinley.
Rosier Alexandre
rosier@rosier.com.br
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